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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

SÉRGIO NEGÃO NA PISTA


Matéria publicada na primeira edição do jornal NA PISTA

Matéria: Marcel Agarie
Fotos: Juliano Carvalho

A pouco menos de um mês para completar 46 anos, Sérgio Fortunato de Paula, a lenda do skate brasileiro também conhecido como Sérgio Negão, recebeu a nossa equipe em São Bernardo do Campo para uma entrevista especial.

Com hábitos simples e uma carreira dedicada ao esporte, sua simplicidade esconde a importância que ele representa para o skate no Brasil. Gosta de uma boa feijoada e filmes de ficção científica. E vivendo no país do futebol, confessa sua simpatia pelo time do povo, o Corinthians. “Gosto do Corinthians, mas gostaria bem mais se eles me patrocinassem”, brinca.


Na Pista – São 28 anos de skate, 25 como profissional. É possível explicar o significado do skate na sua vida?
Sérgio Negão – É difícil definir com algumas palavras. É difícil porque ele faz parte praticamente da metade da minha vida. Ele entrou na minha vida para ficar. Como um filho mesmo. Entrou e ficou, não foi mais embora.

Na Pista – Pra complementar. Como surgiu o skate na sua vida?
Sérgio Negão - O skate surgiu na minha vida em meados de 79. Eu praticava natação. Fiz 15 anos de natação e como o local que eu praticava ficava meio longe da minha casa, no estádio Lauro Gomes, eu comecei usar como meio de locomoção o skate. Meu irmão tinha comprado um skate, mas deixava largado no canto e eu comecei a ir. Fui gostando, fui gostando, fui desinteressando da natação porque eu tinha alcançado onde eu queria chegar, então não tinha mais motivos para treinar natação.

Na Pista – O melhor momento (ou momentos) que o skate lhe proporcionou?
Sérgio Negão – os principais, duas vezes ser campeão brasileiro, duas vezes vice-campeão brasileiro, duas vezes medalha de bronze no X-Games Latino Americano e vai ai pelo mundo afora.

Na Pista – Que tipo de preparação você faz para o corpo e a mente antes das competições?
Sérgio Negão – No skate, por incrível que pareça, é totalmente mente. Se você está mal, brigou com a namorada, brigou com mãe, com os filhos, ou com qualquer pessoa, no trânsito antes de vir para o evento, você não vai andar bem. Porque você precisa da mente para fazer as manobras. Como exemplo, não é desculpa minha, mas no X-Games, um dia antes, eu briguei com todos mundo, chegando lá eu não sabia por onde começar minha linha. E já tinha treinado 4 meses a linha para me dar bem no X-Games, ir para a final, mas chegou na hora eu nem sabia por onde começar. Skate é isso, é totalmente mente, se você não tem uma mente sã, você não consegue.


Na Pista – Você se sente responsável pela popularidade do skate no Brasil?
Sérgio Negão – Minha parcela é continuar andando, mostrando para o pessoal que esporte é saúde, não tem idade, não tem sexo, não tem religião, não tem nada. Esporte é esporte, é vida, é saúde. Acho que minha contribuição é isso aí.

Na Pista – Quem são suas referências no skate?
Sérgio Negão – Minhas referências foi o pessoal da surfcraft, Cesinha Chaves, Ricardo Barbeiro, Jun Hashimoto, Cautai, Bola Sete, Formiga, esses eram os caras que mandavam bem na época, os caras que destruíram. Que trouxeram o skate para o Brasil, na verdade. Eles que mostraram o que era andar em uma pranchinha sem ser na água.

Na Pista – Para você, qual é o melhor skatista de todos os tempos?
Sérgio Negão – De todos os tempos Tony Hawk. Não surgiu e acho que vai ser difícil surgir um cara igual o Tony Hawk.

Na Pista – Como você viveu diversos períodos do skate brasileiro, qual é o balanço que você faz do momento atual do skate no Brasil?
Sérgio Negão – Acho que agora está pior. Em termos de equipamento, em termos de skate, está melhor. Em termos de patrocinador está pior. Na minha época, da Plâncton, quando eu comecei, eu ganhava dez salários mínimos para andar de skate. E hoje em dia, você não consegue chegar a este montante com um patrocinador só, entendeu? Precisa de vários para você chegar em um denominador que dê dez salários mínimos. Pra você viver de skate hoje é meio complicado. Consegue se você não viver aqui dentro do Brasil. Se você for pra fora você consegue uns patrocinadores um pouquinho melhores. Brasil que dizem que é a terra do esporte, que você pode praticar qualquer tipo de esporte, em um país onde não tem gelo a gente é bom até no gelo. Só falta os patrocinadores acreditarem na gente, entendeu? Pra você ver um exemplo. O skate que é o segundo esporte mais praticado no Brasil, só perde para o futebol, quer dizer, ele não é o segundo, ele é o primeiro porque o skate é individual e o futebol é coletivo. Não tem uma marca de tênis que patrocina skate nacional, não tem. O empresário brasileiro é meio, vamos dizer assim, cavalo (faz sinal mostrando o tapa-olho que os cavalos utilizam), não enxerga do lado, só pra frente. Aí ele não vê o que está perdendo. Quando alguém aparece com a idéia que eles pensam: ah, eu deveria ter investido.

Na Pista – Tem algum ídolo?
Sérgio Negão – Tenho vários ídolos. Minha filha, meu filho, minha mãe (risos).

Na Pista – Você foi o criador da manobra 540ºfrontside, que devido a dificuldade, poucos skatistas executavam esta manobra na época. Como foi ela surgiu?
Sérgio Negão – Esta manobra surgiu em um vídeo antigo da Power que eu estava assistindo. Eu vi o Tony Hawk fazendo, que era milerflip 540º. Que antes a gente dava milerfilp só, que voltava de costas. Ai o Tony Hawk inventou o milerflip 540º que voltava de frente. Aí, pensei: que manobra legal, vamos treinar. Como eu já tinha aprendido o milerflip, pensei: vou tentar dar o milerflip 540º. Aí, comecei a dar o milerflip 540º. Num certo campeonato, eu fui dar um milerflip 540º só que eu tinha muito gás. Aí fui por a mão na pista para poder dar a manobra e a mão passou. Aí surgiu o aéreo 540º. O frontside 540º. Assim que surgiu a manobra. Todo mundo fala que foi o Tony Hawk que inventou. Não! Ele inventou o milerflip 540º, o aéreo de from 540º fui eu que inventei.

Na Pista – Foi meio sem querer então?
Sérgio Negão – Foi sem querer. Pode dizer que foi sem querer.

Na Pista – Se você não fosse skatista, o que seria?
Sérgio Negão – Putz! Tenho tanta coisa que eu queria ser. Eu gostaria de ser engenheiro nuclear. (risos)

Na Pista – Pratica ou acompanha algum outro esporte?
Sérgio Negão – Eu gosto de esporte porque eu praticava natação. Eu gosto de mergulhar, gosto de surfar. Não surfo bem, né? A onda mais me pega do que eu pego ela (risos). Mas eu gosto de ficar no esporte. Tudo que é relacionado com água eu me dou bem.

Na Pista – Você percorreu diversos circuitos internacionais. Já sofreu algum tipo de preconceito por ser negro?
Sérgio Negão – Preconceito eu não sei muito bem o que é isso não. Porque se eu parar pra pensar é porque eu não estou tentando evoluir minha vida. Entendeu? A pessoa que está reparando no rabo da outra pessoa é porque não está evoluindo. Então eu acho que você tem que seguir um caminho. O caminho é Deus, você vai, e Deus te guia por aquele caminho lá independente se você é branco, negro, amarelo, vermelho. Deus deu um dom, você tem que seguir ele. Se Deus não condena, quem sou eu pra condenar?

Na Pista – A um mês para completar 46 anos, ainda cheio de gás. O Sérgio Negão faz planos para parar?
Sérgio Negão – Parar? Não sei. Depende de Deus. Tudo depende dele. Ele que fala a hora de começar, de parar, tudo depende dele. Enquanto ele der saúde, inteligência, vontade, garra, criatividade, é tudo Deus que manda. Quando ele falar assim: ô! Chegou a hora! – Ai não dá mais, né?

Na Pista – Algum sonho, ainda não realizado?
Sérgio Negão – Sonho? Eu estou querendo tentar uma manobra. Estou tentando, tentando, tentando, tentando. Vamos ver se eu consigo dar essa manobra.

Na Pista – Pode falar qual manobra que é?
Sérgio Negão – posso falar. É um 900º de from. Se eu acertar, vou ser o primeiro no mundo a dar um 900º de from.

Na Pista – Qual a mensagem que você manda para molecada que está começando agora a andar de skate para um dia serem um Sérgio Negão?
Sérgio Negão – Pra ser um Sérgio Negão, um Lincoln Ueda, um Sandro Dias, um Mike Tyson, um João do Pulo, tem que estudar. Sem estudo você não é nada. Tem que ter força de vontade, acreditar naquilo que você quer. Não adianta você fazer por fazer, porque você estará perdendo tempo da sua vida. E o tempo não volta.

Na Pista – Qual a sua opinião sobre o lançamento do jornal Na Pista, um jornal de esportes radicais e com distribuição gratuita?
Sérgio Negão – Eu acho que é importante porque os esportes radicais vieram para ficar. No mundo todo, todo mundo pratica, é a cara do jovem. São esportes que não tem nada a ver com os tradicionais. Este principio de vocês, do jornal, sendo o primeiro jornal, pois eu nunca ouvi falar de alguém que tivesse essa idéia, vocês estão de parabéns. Espero que continuem por muito e muito tempo. Quanto mais melhor!

Na Pista – Mande os seus agradecimentos
Sérgio Negão – Agradeço principalmente e acho que unicamente a Deus. Pois se eu estou aqui, se sou perfeito, sou inteligente, tudo tenho que dar graças a ele. Também graças aos meus pais que me colocaram em um caminho, graças aos meus amigos que me incentivaram, graças ao público que me incentiva cada vez mais que eu continue a praticar o esporte que eu gosto, afinal, o que eu iria praticar sem ser o skate? Acho que todo mundo está de parabéns, desde o maior amigo ao menor amigo. Acho que todos estão de parabéns e agradeço por ter eles na minha vida. 

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